Por isso mesmo não postei na mesma freqüência. Tô que não me aguento mais de tanta ansiedade. Não é brincadeira passar um mês sem trabalho, sem casa e sem carro! Principalmente pra mim, que posso levar nome de qualquer coisa na vida menos de acomodada. Sou do tipo que não gosta de depender de ninguém, dona do próprio nariz e apta o suficiente pra dar a cara a tapa atrás de conseguir o que quero. Mas a vida, professora engraçadinha, tá me ensinando que quem manda na minha vida não sou eu, ela tem "autonomia" total.
Vou explicar o desgaste psico-físico dessa semana. Nem venham me dizer depois que riram muito do meu post que eu não vou aceitar que vire piada minha sina por aqui.
Vou até dividir em partes.
1. O APARTAMENTO

Consegui organizar a documentação toda, pegar as certidões necessárias, achava que estava tudo certo. Mas falta o banco liberar a carta fiança. Sem a carta, não dá pra proprietária assinar o contrato. Sem o contrato assinado, não dá pra gente entrar no apartamento. Só que a gente falou pro dono do flat que ia sair dia 10. E dia 10 já tem um novo morador! Eu vou ter que procurar um barril igual ao do Chaves pra me enfiar com Mário. Legal, né?
2. OS HOSPITAIS

Se nas semanas anteriores achei ter levado sorte na busca por emprego, essa veio pra me mostrar que não é tão fácil assim trabalhar em SP. A primeira gongada foi quarta-feira. Saí da Pamplona pro bairro de Ermelino Matarazzo, Zona Leste de SP (se tiverem saco de ver a distância no google, vejam e riam da minha inocência indo bater lá). Achei que valia à pena pra um hospital que "pagava bem". A anta aqui entendeu que o valor que eles estavam dizendo era pra 12h de plantão, quando na verdade era pra 24h. Ou seja, pagava pior que Recife. Era um hospital municipal da época do Descobrimento. A Tamarineira é tipo um hospital da NASA perto desse. Daí vocês tiram. Entrei já com vontade de sair. Ainda esperei bem meia hora pelo chefe de lá(e o taxista também, combinamos que ele esperaria "de graça" pra fazer a corrida de volta). O cara me mostrou as dependências do lugar e tentou me convencer de que valia à pena (só se for a título de caridade). Resultado: voltei 160 reais mais pobre pra casa e com o estômago embrulhado.
Quinta-feira, retomadas as esperanças, vou num outro hospital municipal. Dessa vez do lado oposto, na Zona Oeste. Demorei muito pra chegar lá (ler item 3). Estava com um desarranjo gástrico que colaborou para o meu humor ficar perfeito. O hospital era tipo um HBL, feio por fora e bonitinho por dentro (no que se refere à UTI Neo, em ambos os casos). A chefe era simpática e o dia de plantão era bom. Como aqui quase tudo é Caixa 2 (os donos do hospital já falam pra vc na boa sem nenhum pudor), e por isso mesmo pagam melhor, terminei estranhando o valor desse. É melhor que Recife mas pior que os particulares daqui, pois como é carteira assinada e recolhe tudo, o salário fica mais "sequinho". Fiquei de dar a resposta semana que vem.
Após voltar pras bandas de onde tô morando, besta que sou, fui comprar a nova edição do Manual de Neonatologia do Cloherty, um jaleco e uma malinha de plantão novos. Esperei ansiosamente pela manhã de hoje pra dar o meu primeiro plantão oficial em terras paulistanas. Até postei no twitter que tava mais feliz que pinto no lixo. E como minha ingenuidade nem deixou que eu desconfiasse, tomei o maior susto quando cheguei no hospital. Afinal, eu já tinha conhecido o lugar semana passada e tinha adorado. Pois é, caros amigos, as surpresas acontecem. A plantonista que me "recebeu" não olhou pra minha cara (mas pra que olhar pra cara se a gente pode olhar pro sapato, né verdade?). Mandou chamar outro plantonista pra me passar o plantão. Surge um japonês fazendo bico (P da vida porque tava dobrando plantão) e me fala: "Prazer, eu sou o tonto do serviço que dá plantão quando ninguém mais pode." Tava com olhar de ódio pra mim, já que era pra eu ficar sozinha, mas alguém precisava me dizer como as coisas funcionavam lá ao menos no primeiro dia. E ele me passa então a primeira informação: "Aqui são 6 leitos de UTI Pediátrica. Tem o fulaninho que tá no pós-operatório de uma correção de CIA (cirurgia cardíaca), tem o sicraninho que tem esquizencefalia e vai botar válvula (paciente neurológico), tem a beltraninha que tá no terceiro esquema pra uma pneumonia grave, tem a fulaninha que é broncodisplásica (não consegue respirar sem oxigênio suplementar) e tá aqui há 6 meses, tem outro sicraninho que é epiléptico e tá controlado e tem um outro que não tô lembrado. Ah, tem um RN que nasceu nessa madrugada que eu já fiz o surfactante." Eu: Aaaaaaaaaah, tá.
Pausa.
Para os não médicos entenderem o cerne da questão: eu só trabalho com recém-nascido! Menino com dente pra mim é idoso! Passou de 5 quilos pra mim é obeso! Quem faz neonatologia não convive com pacientes maiores. E tudo isso que falei aí acima é tudo que a gente que é neo menos gosta de pegar pela frente.
Voltemos.
Falei pro cara que não era isso que tinham me falado no telefone. Expliquei que fiz residência em neo e que só trabalhava com neo em Recife. O japa me olhou meio puto (japa brabo é bizarro) e disse: "Por isso não, que eu também fiz neo e trabalho aqui." Eu: Mas é que eu não gosto de trabalhar com outro perfil de paciente que não seja RN. Ele:"Por isso não que eu também não gosto." Quase que eu digo: Então problema seu, gatenho, porque eu não sou igual a você e vou embora daqui JÁ!Me controlei, engoli seco e falei com toda calma: Se você não quer ficar sozinho hoje posso examinar todos os bebês do berçário pra você, mas não vou ver os pacientes de UTI Pediátrica. E quando eu acabar, vou embora, porque não me interesso pelo plantão. Ele ligou pro chefe e falou: "A tal Delisse não vai ficar, ela não faz ped." Desligou e disse que o chefe viria no hospital pra falar comigo. Esperei o cara até 9 da manhã, liguei no celular dele e ele nem apareceu e nem atendeu.
Voltei pra casa frustrada, chateada e desencantada da vida. Nada que um cochilo de duas horinhas não resolvesse. Tinha passado a noite sem pregar o olho de tanta ansiedade e estava exausta.
Amanhã tem outro plantão pra testar. Torçam pra que dê certo.
3. TÁXIS

Quando eu cheguei aqui, achava que ia andar muito de metrô. Me enganei. Salvo poucas exceções, não tem metrô pras bandas dos hospitais que estou indo. Todo mundo vai de carro mesmo. E eu, como estou sem carro, vou de táxi. Em um mês, já gastei provavelmente uns 1000 reais de táxi. Isso porque ainda andei muito a pé quando procurei apartamento e de metrô sempre que dá. Mas essa semana foi master, já que fui pra 3 hospitais. E se a gente não der sorte, pega uns malas que só Jesus salva. Se brincar, nem Ele.
Quando a gente pega um cara bonzinho, geralmente é num carro velho, ar condicionado quebrado e tals. Quando o carro é melhor, o cara é chato, fala demais e se acha.
Essa semana comecei pegando um cara num doblô pra me levar na Zona Leste. O papo invariavelmente começa por causa do meu sotaque. Aqui, garçom e taxista é tudo nordestino. E como todo nordestino, se acham paulistas depois de 3 meses morando aqui. E como todo paulista, acham que a gente conhece todos os buracos do Piauí, da Paraíba, do Ceará e de onde mais eles vieram. Como me acham uma moça simpática, começam a me dar dicas sobre a cidade. Um me falou que conhece um rodízio de camarão ótimo que é 23,90 por pessoa. Pra quando eu quiser matar a saudade da terrinha. Outro já me deu dica gastrônomica: "Moça, se você quiser comer bem vai no Bixiga, viu?". E até dica de moda eu já recebi:"Dona, se a senhora estiver precisando de roupa de frio vai lá no Bom Retiro, é o melhor lugar da cidade." Anotado, meu senhor. Voltando pro táxi da Zona Leste, esse foi até legal. Me esperou na porta do hospital onde Judas perdeu as botas e me levou de volta pra casa. Não encheu muito a paciência, a não ser pelas gracinhas com o sotaque. Apesar de que eu também dou corda, confesso. Tô na chuva é pra me molhar. Começo logo dizendo que tô "aperriada", que sou "pirangueira", que ele pelo amor de Deus vá pelo caminho mais "ligeiro" se não a corrida vai dar caro e eu não vou ter dinheiro pra pagar.
Ontem eu já peguei outro perfil de taxista. O FDP tava parado no ponto aqui na frente do flat, então achei que ele era no mínimo um cara que já tinha uma praça e tal (tô manjando muito do mundo taxicológico). Mas não, o bonito ficou lá no ponto de gaiato, pra pegar o primeiro otário que aparecesse (no caso, essa que vos fala). Entrei falando o meu destino final em Osasco, ao que ele respondeu: "Com GPS nóis vai até pra China, mano!" Não sei se por ser semi-analfabeto ou por estar nervoso, ele me entregou o GPS e mandou eu digitar o endereço. Dei sorte, a ida foi 70% tranqüila. Entre marginal, rodovia, etc e tal não deu nem 20 minutos. A bronca foi quando a gente chegou na avenida de destino. Ele se atrapalhou com o lado da rua, foi bater do outro lado de uma ponte, se estressou com a voz de mulher do GPS que mandava ele retornar e me fez até rir. "Cala a boca, muié, você num sabe de nada, mano, me mete em roubada!" Parecia que tava falando com a patroa dele. Ao que a voz do GPS com aquela calma que só atendente de telemarketing tem, respondia: "Favor retornar a 300 metros, permaneça a sua esquerda." Cômico. Mais uma vez o combinado foi desligar o taxímetro e me esperar pra ganhar a corrida da volta. Ele esperou as meia hora de praxe e quando eu voltei já estava mais calmo. Pediu novamente pra eu digitar o destino final. Imaginei que ele usava o GPS pra sair da região central, mas que saberia voltar sem GPS. Nessa hora estranhei e perguntei se ele não sabia andar sem GPS. Ele me explicou que "maizomeno, aê", na verdade ele morou a vida toda em Campinas e estava em SP há 6 meses e começou no ramo de táxi há pouco tempo. Perguntei o que ele tava fazendo no ponto na frente do flat. Ele disse que parou lá porque tava meio perdido. Olha que beleza. Deus é mais! Virei então a co-pilota do infeliz e segui olhando as placas pra ver se a gente saía do labirinto em que a gente se meteu. Quando finalmente caímos numa avenida maior, com as indicações do GPS, demos de cara com um desvio (que o GPS ignorava) e nos perdemos de novo. A mulherzinha do GPS mandava o cara voltar o tempo todo pro lugar do desvio, ele se irritava com ela, mandava a pobre calar a boca, e eu ali no meio dos dois sem saber como apaziguar os ânimos. Ele:"Se eu bater na marginal eu me acho". E eu fazendo figa pra Marginal achar a gente antes dele achar ela, porque o negócio tava fácil não. O taxímetro já passava de 180 pilas quando a gente pegou um congestionamento horroroso. Já era uns meio dia e o sol estava forte. Calor danado dentro do carro. Eu agoniada com a barriga meio ruim (de tanto comer porcaria congelada, tava até demorando). Umas meia hora depois ele chegou em Higienópolis e eu falei: "mudei de idéia, amigo, me deixa aqui que tá ótimo!" Desci no shopping pra respirar um pouco de ar condicionado e tomar uma água. Terminei pagando só cem reais. Ele reconheceu que acabou com o meu dia e me fez ter até certa compaixão por ele.
Hoje foi o fim da saga. Na volta do hospital que não deu certo, peguei um senhor que além de estressado que só a bexiga ainda estava totalmente encatarrado e puxando "as secreções brônquicas" o tempo todo. Como não dava pra "goipar", ele engolia. Fiquei até com medo de ser tuberculose, juro. O cara dirigia mal, dava umas freadas bruscas e uma escarrada de vez em quando que me deixaram com os nervos à flor da pele.
Depois de sobreviver a tudo isso vou dar tanto, mas tanto, tanto valor ao meu carrinho quando ele chegar que tô pensando seriamente em dormir umas 3 noites dentro dele só pra matar a saudade. Parece que chega amanhã. Tomara. Já estou com meu GPS comprado, a cara e a coragem pra cair com tudo nesse trânsito caótico daqui.
...
Justificado então toda minha ausência por aqui essa semana, né, gente? Espero que todos entendam. E espero também ter coisas melhores pra contar assim que possível!
Beijos!
Dey desculpe sei que foi trágico suas idas e vindas de taxi mas aindo to sem ar de tanta risada que dei com suas histórias... kkkkkkkkk Saudades de tu, beijos...
ResponderExcluirKkkkkkkkkkkkkkkkk
ResponderExcluirNg merece!!
Poxa Dey, que aventura, hein? Olha, liga não que já já vc vai estar andando por tudo que é canto e ensinando o caminho pros taxistas! A maioria só sabe andar na região do ponto deles. Dica: chama o Bat Taxi, é sério, eles são bons, ainda pode pagar com visa! Eu, que só vivo atrasada, não tenho paciência pra conversa de taxista e nem pra lerdeza deles... e ficar perdida... aaaahhh isso é demais!!! Absurdo!!! Enfim... ainda bem q agora vc vai ter seu carrinho, que mesmo com esse trânsito, de nunca ter estacionamento, a gente dá graças a Deus por poder ir cantando sozinha e sem ninguém enchendo o saco!!!! bjoooo
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