quarta-feira, 6 de abril de 2011

Fim de uma era

Hoje completei 12 semanas de gestação. Na contagem médica, é o fim do primeiro trimestre. Para quem conta de mês em mês, ainda falta um pouquinho. Eu, neonatologista que sou, conto por semana mesmo, até por que sei quanto cada semaninha é preciosa e o quanto referir-se à idade gestacional em meses é simplista. Afinal, 3 meses parece tão pouco tempo, né? Já 12 semanas! Haja o que falar sobre as primeiras 12 semanas de gestação!

Pois bem, chego às 12 marcantes primeiras semanas simplesmente de queixo caído. A transformação que eu tanto já li sobre, é muito diferente quando é vivida na pele. Não temos a menor noção, por mais maduras e sedentas que estejamos por uma prole própria, do que nos aguarda a partir do dia em que decidimos parar "de evitar". 

No meu caso, a decisão foi tomada entre várias conversas, e como meu método contraceptivo era a pílula, foi fácil ir "esquecendo" até não tomar mais. Talvez para as que usam DIU, medicação injetável, essa decisão tenha que ser mais assumida mesmo. Veio a minha primeira menstruação de um ciclo normal, e eu puft, nem aí, "sabia" que ia demorar pra acontecer, "porque eu tinha tomado pílula por anos..."(Devo dizer que consigo deixar meu lado médica de lado igual como largo meu jaleco no banco de trás do carro). Fiquei tranqüila, tomando um ácido folicozinho aqui e acolá (deveria tomar 2 meses antes de parar com a pílula), continuando com minhas farrinhas de quase recém-casada com muito vinho e amor gostoso. 

E aí veio o dia 10 de fevereiro. O 28o dia do meu suposto ciclo. O dia de menstruar. Nada. Como nesse dia meu cunhado viria aqui em casa e certamente abriríamos um vinho, fiz um teste de farmácia, precavida que sou, só para ter certeza que poderia tomar minhas tacinhas sem culpa. Teste negativo, vinho tomado, muita tranqüilidade e absorvente já a postos aguardando a maré vermelha. Dia seguinte, nada. Continuei esperando, claro que ninguém engravida em menos de 40 dias sem pílula. Dia 12, nada. Dia 13 era um  domingo e eu acordei 10h da manhã surtada: Mário, tô grávida. Ele: vai dormir mais, Dey. Levantei, fui na farmácia, comprei outro teste. Esse mandava esperar 5 minutos para ler o resultado. Olhei com 2 minutos, zero gravidez. QUASE joguei fora. Mas não, deixei lá dentro do bidê (meu apto é antigo e eu tenho essa relíquia vintage do lado da privada). Voltei 20 minutos depois e vi lá uma listrinha muito clarinha no lugar que deveria "acender" a linha do positivo. Surtei atrás de fazer um exame de sangue e fui bater um hospital onde trabalho lá em Osasco pra repetir o teste. Desconhecia que lá no bendito hospital o teste era igualzinho ao da farmácia. Mas pra não dar a viagem perdida, repeti. Listra clarinha novamente. A mocinha do laboratório olhou pra mim com aquela cara: "Ai, Doutora, assim... Desse jeito aí eu nunca vejo não... A senhora tem certeza que já tem 5 dias de atraso?" Mário já tava de saco cheio de listrinhas indecisas, e apesar de eu insistir em ir mais longe, e tentar outro hospital, ele me deu a sugestão de maior bom senso. Esperar até o dia seguinte e deixar o tal "beta" aumentar pra confirmar a minha "suposta gravidez". Sim, porque ele tinha certeza que eu não estava grávida. Voltamos para casa e no caminho eu pedi para ele parar na farmácia. Meio suspeitando mas também sem argumento para dizer não, ele parou. Dessa vez, tive uma idéia de cientista de verdade e resolvi fazer um estudo caso-controle. Comprei 2 testes de farmácia e mandei Mário usar um, enquanto eu usaria o outro. Se dessem o mesmo resultado, eu me conformaria que não estava grávida. Se o meu estivesse diferente do dele, ou ele estaria grávido ou eu! Ele demorou a se convencer, mas como com doido não se brinca, deu lá seu mijão em favor da paz mundial. Pimba! O dele não acendeu nada e o meu,  mais uma vez, deu um positivinho de nada! Pronto! Tá convencido agora? No mesmo dia Dedê (meu irmão) chegou aqui em casa e fez a análise do material e deu veredicto a meu favor. GRÁ-VI-DA, meu velho, GRA-VI-DI-NHA DA SIL-VA. Preciso dizer que guardei o teste do papai e da mamãe de lembrança para comprovar toda a insanidade a Luís Henrique quando ele duvidar? 


***

Nesse mesmo dia tive um sinal dos céus. Minha mãe, pessoa adorável mas com fama de meio insensível para assuntos de melosidade familiar, mandou um presente DO NADA para mim pelo meu irmão. A mensagem que veio junto eu transcrevo aqui: "Você pensa que eu não vou ser uma vovó coruja? Vou sim! Uma coruja doidinha, mas vou. Para refletir - Dê-me Senhor/ Agudeza para entender/ Capacidade para reter/ Método e faculdade para aprender/ Sutileza para interpretar/ Graça e abundância para falar/ Dê-me Senhor/ Acerto ao começar/ Direção ao progredir/ E perfeição ao concluir." Ela tinha comprado o presente há meses e estava esperando a hora certa para me dar. Mas deu a louca e ah, mandou "do nada". O presente:



***

Certeza espiritual eu já tinha, mas faltava documentar legalmente para o marido acreditar de verdade, né? Ia trabalhar só à tarde nesse dia, mas pulei da cama quase de madrugada, esperei o que pude e 10 da manhã já estava no hospital. Passei lá na obstetrícia e pedi à enfermeira que abrisse uma ficha e colhesse o sangue porque eu tinha certeza que estava grávida. Levei pessoalmente no laboratório e lembro que os 40 minutos de espera foram os mais torturantes da minha vida. 


***

Espalhamos a notícia, comemoramos, festejamos com tudo que tinha direito! E eu: "Nossaaaa, como é fácil ficar grávida! E essas dramáticas que dizem por aí que enjoam, passam mal e tudo mais? Se não fosse minha curiosidade eu só ia descobrir que estava grávida com 15 dias de atraso, não estou sentindo nada!". Primeira consulta de pré-natal e eu lá, preocupada: "Doutora, já dosei minha progesterona, vi que está normal, mas assim, poxa, não tô sentindo nada (cara de frustração)." Dra. Juliana, a fofa que está me aturando desde então, reafirmou que a sensibilidade hormonal varia de mulher para mulher. Então tá bom. 

Passam-se 15 dias...

"A pasta de dente está estranha, né, Mário?" "Essa água daqui de casa não está normal!" "Rapaz, tem algo estragado na geladeira, né possível, essa cozinha está com um cheiro muito esquisito, num tá não?!" Sim. Durou 15 dias até começar a vida como eu a conheço agora. Sensação de ter passado a noite chupando moeda, acordando com gosto metálico na boca. Abuso de todos os tons de verde que podem aparecer dentro de um prato. Horror a carne (sensação de estar comendo bicho morto, o que não deixa de ser verdade). Desespero. Choro. Drama. Em pleno Carnaval, com a família inteira em casa (minha médica não curte viagens aéreas no primeiro trimestre e eu troquei a praia e o frevo pelo frio feriado em São Paulo). De lá para cá, Meclin, Vonau, suco de laranja, simpatia, reza forte, e nada dos enjôos passarem. Atualmente estou pesando 2 kilos a menos do que pesava em janeiro. Sobrevivo com a esperança de que, depois de 12 semanas, tudo vai melhorar. E se não melhorar, de outubro não passa, não tá com a bexiga! 

***

Só que a Mãe Natureza é uma senhora muito precavida. E para ninguém vir com uma historinha de "ah, não fiz pré-natal porque achava que tinha ficado sem menstruar por causa do meu ovário policístico e que estava enjoando por causa da minha gastrite...", a Mãe Natureza manda outros sinais pra você ter CERTEZA de que sim, você está grávida. Ela manda espinhas, queda de cabelo, coceira nos mamilos, vontade de urinar de 30 em 30 minutos, sonolência, muita, muita, mas muita irritabilidade também. E aí você se vê, 3 meses após sua última menstruação, sentindo saudade dela. Não que eu queira que ela venha AGORA, mas vamos combinar, TPM e 3 dias de absorvente não fazem nem cócegas perto de tudo isso que eu estou passando agora. 

***

Paralelo a tudo isso, um sentimento muito gostoso se apodera da gente. Um amorzinho que começa a se enraizar dentro da alma, pegar a gente de surpresa e nos fazer de bobos só de olhar uma roupinha tamanho RN. Os sonhos acordada se tornam mais freqüentes, e entre a preocupação com o pré-natal, com a futura fase de amamentação, com o leve desequilíbrio financeiro que se anuncia, nos pegamos devaneando com o quanto deve ser maravilhoso ter nos braços um pedacinho de si. Viajamos longe, pensamos na educação, se vai começar em escola bilíngue ou não, se vai tocar algum instrumento, se vai gostar de passar férias no Nordeste, se vai puxar algum traço da personalidade da mãe, do pai, avó ou avô. Descobrimos que já há muito, muito amor correndo nas veias (e atravessando a placenta!). Percebemos que esse amor só cresce e só tende a nos matar um dia de tanto amar! Mas ai, como é bom, como é bom. 

***

E só sendo um amor assim tão grande e forte pra ser capaz de nos deixar sempre esperançosos, aconteça o que acontecer. Há 10 dias estou da cama para o sofá, do sofá para cama, sem direito a pisar na rua, a trabalhar, ver gente, viver uma vida normal. Trancada na minha própria casa, restrita e tricotar com a empregada sobre as mazelas da gravidez e desabafar com o pobre papai quando ele chega à noite, moído do trabalho, posso dizer que as coisas não andam fáceis. 

Mas vem o dia do ultrasom. Dia de novidades que podem ser boas ou não. Mas dia de ver o meu bebê mexer. Nadar na sua piscina térmica. Flutuar no céu como um pequeno astronauta (já falei da minha fascinação por coisas espaciais, né? Será que LH será igual?). E aí aquela coisinha boa dentro da gente, amor misturado com uma pontinha de orgulho do filhote em desenvolvimento, elimina a dor de escutar que alguma coisa ruim precisa ser contornada. Ser mãe exige força e coragem. Exige coisas que imagino, mas nem sei dimensionar. Talvez minha mãe e minha sogra possam falar muito sobre essa exigência toda da maternidade, eu ainda não. Mas do pouco que ser mãe tem me exigido, não posso fugir. Se é pra ficar quietinha em casa, rezando, lendo, matando o tempo com revista de fofoca ou literatura de primeira, estamos aqui, Luke (o primeiro apelido surgiu). Mamãe está aqui, filho. Se eu precisar reinventar a roda, acabar com as ditaduras árabes, descobrir a cura da AIDS ou ficar na cama até você nascer, vou fazer tudo isso para ter você cheio de saúde ao meu lado. Porque eu já te amo mais que tudo nessa vida.

Que venham mais 25 semanas! (Mas se eu chegar em 34 já tô cantando vitória, né, amigas neo?)

5 comentários:

  1. Adorei seu blog!!!

    Passei aqui par aconvidar você para conhecer meu blog.

    Quando puder passe por lá, vai ser prazer ter sua companhia.

    bjs

    www.tatidesignercake.blogpsot.com

    ResponderExcluir
  2. Oi, Tatiana! Acabei de visitar o seu blog e adorei! Minha sogra também trabalha com cupcakes, vou indicar seu blog para ela. Ela mora em Recife e adora ficar por dentro das novidades. Sou louca para experimentar os cake pops, vc entrega em São Paulo?

    ResponderExcluir
  3. Acabei de ler o post emocionada! Com agua nos olhos! Lindo! Vendo por essa perspectiva acho que to perdendo tempo em sentir isso tudo ne nao?! Bjs

    ResponderExcluir
  4. Relaxa, Bel, quando a vontade for mais forte que a razão vc libera! Hehehe. É preciso ter certeza antes de encarar esse turbilhão de emoções, né? Porque até quando a gente acha que está super certa do que quer é supreendida com pensamentos do tipo "e se eu tivesse me preparado melhor?". Porque até a gravidez mais saudável do mundo restringe e muda a vida de uma mulher. O melhor conselho que posso dar é para que vc converse e pense bastante sobre. Não adianta esperar 5 anos de casada para engravidar se vc passou os 5 anos sem sequer imaginar o quanto um filho vai mudar sua vida e seu relacionamento. Esse tempinho é bom pra gente aproveitar, pra gente namorar, ter liberdade, mas tb deve ser usado para a gente tentar vislumbrar o futuro como mamãe e se planejar para que isso seja o mais prazeroso possível. Eu já conversava isso desde poucos meses de casada, porque no fundo já ouvia algo dentro de mim cobrando... Apesar de estar com 29 anos agora, já me sinto uma trintona faz tempo. Rs. Talvez meu relógio biológico tenha alarmado mais cedo. Mas olha, quando decidir, divide aqui no deyjavu, viu?
    Bjão!

    ResponderExcluir
  5. Estou grávida de 9 semanas, e também me emocionei lendo seu texto.... Ah, como estou sedenta por essas 12 semaninhas! Muito obrigada por ”tagarelar" por aqui, e muita saúde ao seu Príncipe lindo!

    ResponderExcluir